• Daiane Fernandes

É possível atuar com redação publicitária e ter saúde mental?

Quem trabalha com redação, especialmente a publicitária, sabe que a exigência para que os textos sejam produzidos com agilidade, quase sem tempo para refletir sobre a mensagem, é comum. Além de levar a textos ruins, isso também afeta a saúde dos redatores.


Criei a ala de Publicidade aqui no blog, afinal sou redatora publicitária, mas até então não tinha abastecido ela com nada, porque realmente não queria produzir mais um texto com dicas para redatores publicitários.


Tenho algumas dicas na manga que pretendo usar mais pra frente, mas antes disso queria tratar sobre algo mais relevante e que especialmente quem está começando deve estar antenado, que é a saúde mental.


Recentemente, descobri um pré-câncer e precisei fazer uma cirurgia. Felizmente foi algo fácil de tratar, constatei graças ao exame preventivo ginecológico chamado papanicolau, que acontece no colo do útero. O procedimento foi simples, entrei na sala de cirurgia de manhã e sai na noite do mesmo dia. Agora é acompanhar semestralmente e tudo certo. Por ter visto logo, as chances de não precisar fazer mais nenhum tratamento são grandes.


Não digo que o meu trabalho foi o responsável por isso, mas quando a gente leva um susto desses, começa a repensar algumas coisas, como nossos hábitos. Eu vinha numa rotina alucinante de produção de textos das 7h às 22h. Atuo como MEI, então, apesar de ter um trabalho fixo que me remunerava nesse formato, não me sentia à vontade para recusar bons freelas, porque a gente nunca sabe quando será demitida e sairá com "uma mão na frente e outra atrás".


Meu humor andava alterado e, de certa forma, já não vinha sentindo o mesmo prazer em escrever quanto já tive antes. Sem dúvida é o que amo fazer, mas quando uma pauta de agilidade é imposta para você, com uma série de datas a serem cumpridas, muitas delas apertadas, com alterações infundadas e que só atrasam sua vida, e você tem que viver em constante negociação com chefe e clientes, a coisa fica pesada.


Tem dias que você quer fugir daquilo, simplesmente não quer fazer, porque seu cérebro fica exaurido. Produzir qualquer texto não é algo que acontece automaticamente, apesar de esse tipo de rotina, às vezes, nos fazer parecer que sim. Existe um processo bem grande por trás de qualquer criação textual que envolve a fase de pré-escrita, inclusive.


Mas aí, a rotina é avassaladora. Ela te devora e te obriga a entregar a toque de caixa, porque o cliente ameaçou ir embora, porque precisamos ter posts todos os dias no Instagram, porque a concorrência fez aquele vídeo muito legal, porque todo mundo está entrando no TikTok, porque não importa o tempo necessário, só querem que você entregue, praticamente vomite o conteúdo, para que essas necessidades, muitas vezes fruto de pura ansiedade e muita falta de planejamento, sejam atendidas. UFA!


Dizem até que vamos ser substituídos por robôs.


Não quero assustar futuros redatores, mas esse tipo de coisa acontece. E aí, amigas e amigos, é preciso ter jogo de cintura, respirar fundo e descer a ladeira da pauta. Tem muito a ver com aceitar que as condições criadas não dependem de você e sobre negociar e renegociar prazos, além de falar que menos tempo impacta em menos qualidade. Nem todo mundo entende, mas é isso aí. Não existe mágica.


Atualmente, estou vivendo apenas de freela. Deixei o trabalho fixo que tinha para poder definir meus próprios horários, minha própria pauta, meus próprios preços. Sei que consigo ter uma carteira de clientes graças a muito trabalho duro nesses mais de 10 anos exercendo a profissão, fazendo contatos com outros profissionais incríveis que com o tempo passaram a confiar no meu trabalho.


Minha recomendação, para você que está começando, é adquirir experiência e trabalhar duro se for preciso por um tempo, mas ir aprendendo muito com os profissionais a sua volta durante esse período, fazendo networking, criando portifólio, mostrando o que você sabe fazer seja em um blog, um Instagram, postando no LinkedIn. Enfim, já consegui muitos trabalhos dessa maneira, falando sobre o que sei.


Afinal, você vai escrever para tantos clientes, marcas, pessoas, empresas... por que não escrever para você?


E então, em algum momento, isso pode ficar mais confortável, sim. Mas nunca menos trabalhoso. Por isso, mesmo que você seja um profissional pleno ou sênior como eu, a dica é a mesma para qualquer pessoa que vive de texto: cuide da sua saúde mental. Se você optou por essa carreira, sei que deve ser porque ama isso, como eu.


Não é só sobre dinheiro (na verdade é muito pouco sobre ele), mas sobre facilitar a leitura, gerar acessibilidade, causar emoção, trazer resultados para além do lucro, resultados que possam reverberar na sociedade de maneira positiva, em forma de conscientização. As palavras têm poder. É para isso que se torna uma redatora, um redator. Para usar esse poder de forma significante.


Por isso, não se deixe engolir por muito trabalho e pouco dinheiro, muita refação e pouco resultado. Imponha limites, dê o seu tempo, peça mais tempo. Felizmente, essa dinâmica desenfreada tem mudado um pouco e estão surgindo mais profissionais e empresas que entendem que um bom conteúdo precisa de pesquisa, planejamento, incubação, enfim, de um processo, como qualquer atividade criativa.


Se vão entender quando você contar como funciona o seu processo criativo, são outros quinhentos. Mas quem vive de texto sabe que bons textos não surgem do meio de um rolo compressor contando caracteres. Exige criatividade, respiração e até poesia. Não somos máquinas, somos seres humanos.


Me permiti não pensar em SEO neste texto e falar apenas com o coração. Espero que tenha chegado até você. Um abraço do fundo do meu coração, de profissional de texto para profissional de texto. Você tem valor e merece respeito!

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