• Daiane Fernandes

A era da desinformação e o que a redação tem a ver com isso

Estamos vivendo uma propagação de fake news, uma epidemia de desinformação online, que precisa ser combatida. O que fazer para melhorar esse cenário?



Primeiro, vamos nos situar: o uso de informações online é uma realidade da vida contemporânea. Você vai na internet para saber sobre tudo. E pela internet descobrem tudo (ou quase) sobre você.


O que está acontecendo na Austrália? "Uma celebridade disse tal coisa", deixa eu pesquisar. Qual a temperatura amanhã? Onde fica a rua X? Preciso de um Uber. Vou chamar um iFood. Vou pagar um boleto.


Quantas coisas você faz exclusivamente pela internet hoje e como seria a sua vida se não tivesse nada disso?


O isolamento social tem nos mostrado como a internet pode ser útil. E também como existe outra disseminação perigosa acontecendo e ajudando um vírus que faz mal para a saúde a se propagar mais rápido: por todos os lados vemos textos reduzindo os profissionais da saúde, cientistas, jornalistas. Há até quem diga que o vírus não existe.


O fato é que, daqui pra frente, estaremos cada vez mais interligados a ferramentas online possíveis de serem acessadas de qualquer lugar, e todas elas envolvem conteúdo. Conteúdo que chega até você e que você gera na rede.



Dizem os terraplanistas que a Terra ser redonda é uma grande fake news propagada esse tempo todo. Pois é, nunca foi tão fácil criar uma teoria totalmente sem embasamento, usar argumentos convincentes que ninguém vai testar, e mesmo sem provas angariar uma legião de fãs da sua teoria da conspiração.


Quanto mais absurdo for, melhor:

1- Alguém disse;

2- Eu gostaria que fosse verdade;

3- Pronto: é verdade! Bora compartilhar com todo mundo esse fato que eu nem sei se é real, mas gostaria que fosse.


Poderíamos dizer que são só um bando de loucos, mas aí essas teorias passam a ser vistas como verdade (mesmo!) e você tem uma fake news que muda o jeito de pensar das pessoas e motiva ações delas, como a de levantar fundos para ir até a Antártida descobrir uma grande parede de gelo (que comprovadamente não existe!).


Ou pior: dizer que a maior pandemia da nossa era não existe. E as pessoas começam a desrespeitar o isolamento, levando uma vida normal e colocando o sistema de saúde em risco.


O que fazer para melhorar esse cenário?



As fake news causam uma confusão dos diachos. Estamos literalmente colocando pautas sérias em jogo. Em um espaço onde todo mundo pode falar o que pensa e inclusive mentir sobre o que quer que seja, cabe a cada usuário da rede definir aquilo em que pode ou não confiar.


E por isso nos cabe criar um ecossistema de informações neutras. Essas ações podem envolver colaborações coletivas em prol da verdade ou ferramentas que se preocupam em informar o público com conteúdo real e sério.


Seja como for, precisam urgentemente ser implementadas. E aí entra você, redator.



O relatório da Ordem Global da Desinformação de 2019, compilado nos últimos três anos pela Universidade de Oxford e o Oxford Internet Institute, é uma análise global sobre a manipulação de informação nas redes sociais, plataformas que se transformaram em ferramentas de controle a serviço de governos e políticos.


O estudo cunhou o termo “tropas cibernéticas” para definir esse novo tipo de comportamento coletivo. É algo sério, que não pode ser ignorado. A disseminação de desinformação criou uma tendência geral de ceticismo e falta de confiança entre o público.


Nesse cenário, o acesso regular a fontes confiáveis de comunicação é uma estratégia fundamental. Com o desenvolvimento de iniciativas que ensinam a ter pensamento crítico, o público é capaz de avaliar de maneira correta. Mas é preciso ter ações, mensagens e objetivos consistentes.


Como disseminar verdades (verdadeiras)



Pollyana Ferrari, escritora e pesquisadora em Comunicação Digital, uma das maiores especialistas no papel das marcas no combate às fake news, doutora e mestre em Comunicação Social pela Universidade de São Paulo, destacou a importância da checagem de informações e do monitoramento, em entrevista à Brand Publishing Brasil.


Para ela, as fake news são o câncer do século atual. Temos exemplos como o da Fabiane de Jesus, que foi linchada no Guarujá, litoral de São Paulo, por ser acusada de praticar magia negra com crianças. Ela tinha 33 anos, era dona de casa, casada e deixou dois filhos.


A informação era falsa, era um boato de internet. Ela foi espancada e assassinada por moradores por causa de um retrato-falado de uma sequestradora de crianças feito dois anos antes, que passou a circular nas redes sociais.


Alguém viu Fabiane oferecendo uma fruta a uma criança no bairro e ligou a sua imagem com o retrato-falado. Ela também carregava um livro preto que segundo os linchadores seria um livro de satanismo, enquanto na verdade era apenas uma Bíblia. Estava feito o estrago.


Quando as pessoas criam uma notícia falsa sobre alguém ou alguma marca na internet, podem retirar essa informação do ar, mas o seu alcance pode tornar os impactos irreversíveis.



Obviamente, não são apenas redatores que produzem conteúdo, mas quero lembrar que redatores essencialmente têm um compromisso com a verdade.


Vivemos em um cenário de grande exposição midiática. Porém, checar fatos é um ato apartidário, não tem a ver com religião, raça, gênero ou faixa etária. Quando a gente fala de fatos, isso significa que todos são responsáveis. Quem trabalha com a criação de conteúdo é ainda mais responsável, inclusive ajudando a desmentir notícias falsas.


O Facebook por um bom tempo adotou a defesa de que “o conteúdo não era produzido por ele”. Não adiantou. Teve que criar mecanismos para barrar as fake news e se responsabilizar. Todo disseminador de informações é responsável, seja quando escreve, quando permite a existência do conteúdo falso ou apenas quando clica em “compartilhar”.


A Coca-Cola, por exemplo, desde 2017, criou um ambiente chamado “#éboato”, em que fala sobre os principais boatos sobre a marca, com base nas citações que recebe associadas a seu nome. Essas iniciativas educacionais devem crescer no mercado corporativo.



As marcas buscam se defender e devem fazê-lo, até mesmo para educar o seu público. Foi por isso que vários sites surgiram apenas com esse objetivo, e qualquer pessoa pode contar com eles antes de compartilhar informações que não tenha certeza. Ao final deste texto, cito uma lista.


O próprio Ministério da Saúde criou alguns selos para ajudar a desmentir notícias falsas a respeito do coronavírus. Entregar apenas informações verificadas contribui com a disseminação de fatos. E precisamos muito!


Disso depende o nosso futuro, a nossa segurança e a construção de um mundo justo.


Dica bônus: como identificar fake news


Não é tão fácil quanto parece, mas essencial nos dias de hoje.


A primeira coisa que deve ser observada é o título. Focar exclusivamente nele pode tirar o contexto da matéria, sem contar que está cheio de notícia velha circulando como se fosse de agora. Olhar a data pode facilmente identificar a fake news.


Muitos textos apenas querem fisgar leitores pelo título e gerar acessos: não duvide que seus criadores apelam para conseguir isso. Então, sempre leia todo o conteúdo das matérias, não vá apenas pelo título e já saia compartilhando.


Desconfie de informações extremistas ou vagas demais. Informações bem escritas e claras acompanham fontes e confirmam a possibilidade da informação ser verdadeira.



Imagens e vídeos geralmente não possuem referências, portanto, é muito importante desconfiar desse tipo de conteúdo, pois ele se espalha de forma rápida.


Confira sempre se existe alguma matéria publicada em mais sites sobre aquele determinado assunto. Se não encontrar mais nada sobre em outros lugares ou se o conteúdo estiver apenas em sites suspeitos, não compartilhe.


Se você manja de inglês, verifique também se as informações internacionais sobre o que você está lendo foram publicadas por veículos estrangeiros de grande influência.


Sites que se utilizam de fake news também costumam utilizar algumas fontes para disseminar mentiras. É importante verificar as fontes, se especialistas realmente são reais, se os lugares e provas existem, pois a junção de informações descontextualizadas pode gerar uma notícia falsa.


É importante verificar também que imagens podem ser forjadas, como capas de grandes revistas contendo manchetes falsas.


Por fim: antes de compartilhar qualquer informação, verifique sempre, tire um tempo para validar aquilo que você está repassando, não compartilhe logo de cara. Se tiver dúvidas sobre o conteúdo recebido, a melhor opção é não compartilhar.


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www.e-farsas.com www.boatos.org www.piaui.folha.uol.com.br/lupa www.projetocomprova.com.br www.nilc-fakenews.herokuapp.com www.apublica.org www.g1.globo.com/fato-ou-fake

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