• Daiane Fernandes

Por que odiamos tanto a língua portuguesa?

Sempre gostei de estudar a língua portuguesa. Aos quatro anos, minha mãe ensinou a escrever meu nome e todas aquelas frases dos papéis de carta que ela lia saíram da decoreba da minha memória e passaram a fazer sentido.



Ainda antes de aprender as classes gramaticais na escola, lia umas enciclopédias que meu pai havia adquirido quando era jovem e estavam largadas lá na estante. Gostava daquilo, mas confesso que comecei a gostar mesmo da língua quando descobri que podia usá-la para me expressar.


Percebi isso graças a uma professora que, na segunda série do ensino fundamental, me chamou a atenção para a primeira redação que eu havia escrito. Eu queria contar a história de um garoto, mas me perdi na narrativa e encerrei dizendo que ele não sabia plantar batatas.


Foi então que ela me disse: “Percebe como a sua história se perdeu? O que você escreveu ao final não tem ligação com o que você começou escrevendo, e uma história precisa ter sentido”.


Recomecei e contei a história de uma menina que se perdeu da mãe na rodoviária. Fato que havia acontecido comigo mesma alguns anos antes. Desde cedo aprendi usar a própria experiência ou ao menos a observação como ferramenta de escrita criativa.


Parece muito para uma criança de sete anos, mas essas palavras tiveram um poder incrível, pois a partir disso sempre queria dar sentido a tudo que escrevia e comecei a me dedicar particularmente a poemas, quando além de dar sentido, descobri que podia rimar.


Redação passou a ser meu passatempo predileto, gostava de brincar com as palavras e descobrir novas. Lia e relia o dicionário; as aulas que tinham ditados eram minhas favoritas, e assim fui agregando conhecimento.


Adorava ler qualquer livro, anotar as novas descobertas, usar as palavras novas em textos próprios, inventar novos poemas. Não gostava de ficar classificando as palavras.



Gostava do significado que elas tinham, do som que emitiam, de como cada dia descobria mais formas de argumentar e criar ligações entre as frases que conseguiam expressar lindamente aquilo que só estava dentro da minha cabeça. E amo fazer isso até hoje.


Apesar de amar a língua e todo o arsenal que ela dava para me expressar, nunca gostei da mecânica que o colégio dava quando mandava classificar uma oração subordinada substantiva ou qualquer outra coisa assim com nome enorme.


Confesso que ficava buscando as razões de ficar decorando essas classificações que nunca me ajudaram a escrever. Porém, seguia dizendo que amava português. Era minha matéria preferida. Meus colegas não entendiam, a maioria deles odiava, mas lá no fundo também nunca gostei dessa parte mecânica.


Me formei em Publicidade e Propaganda e hoje sigo pelos caminhos da redação publicitária, mas recentemente resolvi ingressar em uma pós-graduação da área de Letras. É um curso focado no estudo de gramática da nossa língua e, diferentemente do que imaginei ver quando resolvi começar os estudos na área, descobri que não se tratava de mais ortografia, mas sim do estudo da linguagem.


Achei que veria muito sobre a nova ortografia e poderia entender alguns outros detalhes que talvez tivessem passado batidos no colégio, mas foi muito melhor.


Isso mesmo, aquilo que eu queria ter visto mais no colégio, não as regras todas, mas a beleza da linguagem, foi o que encontrei na pós. Dei de cara com as mais diversas teorias da linguagem e aprendi um pouco mais sobre o que caras como Saussure, Chomsky e Ducrot tiveram e têm a dizer.


O curso abriu a minha mente para essa ciência incrível que é a linguística.



Por algum tempo, a linguística não foi vista assim, como ciência, mas é. E olha que engraçado: todas as ciências precisam da língua para se comunicar, seja uma pesquisa da área da saúde, da engenharia, da filosofia ou do design, por exemplo. Seu objeto de estudo é a própria língua.


É uma espécie de Inception (se ainda não viu esse filme, recomendo): para falarmos de linguagem, precisamos usar a própria linguagem. E não estamos falando só da nossa língua separadamente, mas do ato mesmo de se comunicar. A linguagem é algo fenomenal.


Quando a gente volta lá na infância e começa a pensar em como começamos a falar, a escrever e a ler, não encontramos esse momento, porque ele vai acontecendo de maneira gradual. E só se aprende a falar, falando e a escrever, escrevendo.


Para isso, não é preciso aprender a classificar palavras, mas continuar sempre evoluindo no sentido de expressar-se por meio da língua. É isso que toda criança faz e de repente para, quando diante de tantas normas, começa a achar o português chato e abandona a vontade de brincar com as palavras, com os sentidos delas, aonde elas podem levar.


E meu questionamento aqui é esse: Por que odiamos tanto a língua portuguesa?



Grande parte das colegas desse curso de pós que eu fiz eram professoras de português e dão, até hoje, aulas para o ensino fundamental e médio. E em praticamente toda aula acabávamos caindo na questão de como o ensino da língua tem sido feito no Brasil.


Os formatos são impostos e os professores são obrigados a seguir uma apostila de pura decoreba, de forma que os alunos não podem pensar, não podem evoluir na linguagem, e isso faz com que as pessoas cheguem na graduação sem saber argumentar, sem saber escrever um texto coeso e pior: com ódio da língua portuguesa.


Não estou defendendo que não precisemos saber as regras da língua. As regras são essenciais para que se escreva corretamente e inclusive se tenha clareza na comunicação. Mas é preciso que se explique mais as regras, suas razões de existência.


Com o Novo Acordo Ortográfico, algumas regras complicaram bastante, mas, por exemplo, a maioria das pessoas não sabe utilizar a crase. Por quê? Porque decora aquelas sete ou oito situações em que vai crase e não entende o seu funcionamento.


Sabia que crase não é um acento? É meramente uma marca que mostra que ali, onde tem a crase, existe uma junção de dois “as”, pra gente não precisar dizer "Fui a a escola?".


Vê como fica fácil? Fui a algum lugar, e esse lugar era a escola. Temos dois “as” e pra não ter que falar duas vezes, o sinalzinho bendito da crase está ali indicando isso, porque não podemos ignorar a existência dos dois “as”.


Foi a forma que se achou para o funcionamento disso, porque quando digo que "Fui ao cemitério", está ali o bendito a+o, não escondemos ele, assim como não podemos esconder o a+a, mas é preciso saber que crase é o a+a e não um mero acento.


Se em matemática a gente precisa entender o funcionamento, por que no português temos que decorar? Decoramos algumas fórmulas na matemática também, mas existe uma lógica!



Português também tem lógica. E precisa de ainda mais lógica quando saímos do âmbito de uma frase para entrarmos em um texto, quando as frases precisam conversar entre si, introduzir um assunto, desenvolvê-lo e chegar a uma conclusão.


É preciso saber articular palavras e expressar isso de forma clara. Todos precisam da linguagem para transmitir o que querem, seja em que ramo for.


Precisamos da linguagem para nos relacionarmos, seja no âmbito pessoal ou profissional, precisamos nos fazer entender e evitar ruídos, porque a má comunicação pode causar guerras, assim como se não soubermos perceber certos discursos muito bem construídos, podemos ser enganados por falsos oradores, que com o poder da palavra reúnem multidões em torno de um ideal.


Precisamos saber argumentar, saber construir pensamentos e fazer bom uso da língua porque disso depende nossa vida. Exagerei?


Acredito que não, pois em tudo que fazemos precisamos usar linguagem. Diante da utilidade que a linguagem tem, como podemos odiar a língua portuguesa?


Acredito que caiba ao ensino firmar o ato de pensar e usar a língua muito mais do que o ato de decorar regras, e também mostrar a importância fundamental que o bom uso da língua terá para o resto da vida do indivíduo.


Quando um povo não sabe se comunicar, isso complica diversos setores da sociedade. Como resultado, temos uma nação que não se entende, não argumenta e não pensa.


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