• Daiane Fernandes

Por uma linguagem mais inclusiva

Atualizado: 30 de set. de 2021

Linguagem inclusiva, linguagem neutra e linguagem simples. Pontos diferentes, mas todos pela inclusão.



Recentemente fiz uma publicação no meu LinkedIn que teve um alcance que eu nunca imaginei. Quando escrevi, possivelmente ainda não tinha percebido o quanto esse tema era polêmico e, mais do que isso, o quanto as pessoas estão mais dispostas a tornar esse assunto uma briga de lados opostos do que buscar soluções, juntas.


Afinal, quando falamos em buscar uma linguagem mais inclusiva, estamos falando sobre tornar a nossa comunicação mais receptiva a todos. Por isso mesmo, todos podem e devem fazer parte dessa discussão.


Também senti que algumas pessoas entenderam que eu estava menosprezando a linguagem neutra, e li comentários bem agressivos, tanto de quem considera a tentativa de tornar a fala mais inclusiva usando “x” ou “@” como uma grande bobagem, quanto de quem quer impor, a todo custo, sem importar as consequências, o uso de neopronomes “goela abaixo”.


Teve até quem leu apenas o que estava na imagem e veio me chamar de radfem. Felizmente essa pessoa se deu por si e apagou o comentário. Não considero nenhuma tentativa de tornar a linguagem neutra bobagem. Apenas acredito que seu uso deve ser analisado e não imposto.


A linguagem é viva, mas tudo o que falamos até hoje não foi imposto. Aconteceu de forma natural. Ninguém disse “agora você começa a falar assim, porque tem que ser assim”. Simplesmente a própria cultura foi moldando o nosso jeito de falar.


"Ninguém pode nos forçar a falar de determinada maneira, felizmente mesmo. As evoluções chegam até nós sem que as percebamos, por imitação, porque circulam as novas palavras, os novos sons, que se tornam pouco a pouco familiares e possíveis. Na verdade, o excesso de zelo na escrita igualitária pode ter um efeito contraproducente. É melhor ter alguns sinais de atenção em um texto do que um uso sistemático que corre o risco de desacreditar o próprio objetivo do processo".

Julie Neveux, professora de linguística na Sorbonne University


Por essa razão considero tão importante usar a própria língua portuguesa, que é tão rica, de forma mais inclusiva. Se “aluno” ou “aluna” não representa adequadamente todas as pessoas, “estudante”, que já é uma palavra conhecida e usada de forma ampla na nossa linguagem, pode ser uma boa saída. Não resolve tudo, mas resolve boa parte.


Depende muito mais de uma consciência social em querer ser mais inclusivo para, a partir disso, usar a nossa própria língua dessa forma, do que querer impor a uma sociedade que ainda não entende a importância de se ter uma linguagem inclusiva, uma língua totalmente nova, que é rejeitada por muitos por se tratar, praticamente, de outra língua.


Precisamos preparar melhor esse terreno e educar para, a partir disso, quem sabe, buscar trazer os neopronomes, para que eles façam sentido. Como eu disse, a língua é construída e não imposta.


Entendo que essa disputa de egos ao falar de um assunto como esse tem muito a ver com o momento político que estamos passando no Brasil, que é um tanto quanto estranho e propício a levantar esse tipo de agressividade, infelizmente. Alguns comentários trouxeram vídeos do governo federal, inclusive, o que nada tem a ver com essa discussão.


Dito isso, quero deixar claro que a leitura deste texto deve ser feita de um ponto de vista totalmente aberto, porque não estou aqui para impor nenhuma verdade absoluta, mas, pelo contrário, expor algumas ideias sobre o que pode ajudar a linguagem a ser mais inclusiva e, a partir disso, gerar uma reflexão construtiva e conjunta sobre o assunto.


Primeiramente, vou falar sobre linguagem inclusiva e, depois, vou trazer alguns aspectos a respeito da neolinguagem proposta e, por fim, falar sobre linguagem simples. Porque sim, são três coisas diferentes.


O que é linguagem inclusiva?


Considero muito importante falar sobre linguagem inclusiva, ou seja, como a língua, como a conhecemos, pode fazer com que quem está lendo sinta-se incluído ou incluída na leitura, porque vivemos em um país diverso. Agora mesmo, enquanto digitava “incluída”, o corretor perguntou se eu não queria trocar para “incluído”. É sobre isso que precisamos refletir.



Segundo dados do PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) 2019, a população brasileira é constituída por 48,2% de homens e 51,8% de mulheres. Portanto, é muito provável que, ao se comunicar, você esteja falando com uma mulher. E por isso faz tanto sentido questionar se usar palavras masculinas o tempo todo, tratando elas como palavras “neutras”, ainda faz sentido.


Isso explica a adoção da palavra “pessoa”, por exemplo, em uma vaga de redação, usando “pessoa redatora” ao invés de redator. Ou fala-se da coisa em si, “vaga para redação”. Porque isso tira o peso masculino de falar apenas “vaga para redator”. É lógico que, nós, mulheres, entendemos que a vaga para redator é direcionada a todas as pessoas, mas a gente vê isso assim porque, por muito tempo, não existiam redatoras.


Assim como as mulheres foram proibidas, por muito tempo, de jogar futebol no Brasil, um passado obscuro bem recente, era comum que apenas homens ocupassem determinados espaços. Então sempre foi comum entender que os espaços eram ocupados por eles, por todos, que eles eram bem-vindos.


Reforço que não foi a língua que manteve esse sexismo, mas quem faz o uso dela. Como exemplificado, existem outras formas de comunicar uma vaga de redação sem focar exclusivamente no público masculino. A reflexão é essa. Precisamos entender o sexismo, o machismo, a homofobia, o racismo, para só então entender a importância de se comunicar de uma maneira diferente. Só assim essa comunicação fará sentido.


Hoje, felizmente, vivemos uma nova realidade. Mulheres estão e devem estar onde desejarem estar, onde se sentirem melhor, trabalhando e fazendo o que gostam de fazer, sem medo de julgamentos. Sabemos que até hoje perduram as piadinhas sobre jogadoras de futebol, juízas, ocupantes de cargos políticos, e por aí vai. Mas nós estamos lá. A cultura está mudando e a linguagem vai mudando com ela.


Precisamos pensar em formas de conversar com elas também, pois nem sequer minoria somos. Somos maioria nesse país, somos muitas e merecemos respeito. De novo, enquanto escrevi esse “muitas”, o corretor ortográfico perguntou se eu queria corrigir para “muitos”.


E também precisamos pensar nas minorias na hora de escrever. Escrever tomando cuidado ao escolher palavras que demonstrem respeito com todas as pessoas, sem privilegiar umas em detrimento de outras. Isso é escrever de forma inclusiva. Não apenas pensando nas mulheres, como também em imigrantes, indígenas, pessoas negras, idosas, LGBTQIA+ e com deficiência.


É por meio da linguagem que a gente pode criar consciência e quebrar padrões de pensamento.


"No caso dos marcadores de gênero, começamos esbarrando em limitações impostas pelo nosso idioma. Não apenas porque quase todas as palavras em português estão no masculino ou no feminino. A escolha do masculino como genérico e a maneira como são construídas as frases, ocultando o gênero feminino, reforça e perpetua estereótipos do que um dia foram considerados papéis adequados para mulheres e homens na sociedade. A existência de um gênero neutro, presente em idiomas como latim e alemão, ou ausência de gênero em substantivos como no finlandês e no turco, não implica na diminuição do machismo em uma cultura. [...] A busca por substituir marcadores de gênero e outros elementos que reforçam preconceitos no discurso é um processo que explicita respeito e empatia, princípios básicos que deveriam reger as relações sociais."

FISHER, André. Manual da Linguagem Inclusiva. pág. 8 e 9


Assim, o que André quer nos dizer é que podemos e devemos aproveitar a língua portuguesa, que é tão rica, para pensar a escrita de uma maneira mais inclusiva, porque é possível. Afinal, governante ser quem lidera um país e governanta ser quem coordena trabalhos domésticos na casa de outra pessoa nos diz muita coisa, não é?


Aliás, este manual de linguagem inclusiva é incrível, não deixe de lê-lo!


E o que é a linguagem neutra ou neolinguagem?


Segundo ensaios sobre o perfil da comunidade LGBTQIA+, IBDSEX, de 2020, com 8.918 respondentes, por região do Brasil temos a seguinte população LGBTQIA+:


  • Norte: 5,5%

  • Nordeste: 20,6%

  • Centro-Oeste: 8,1%

  • Sudeste: 46%

  • Sul: 19,8%



Não são dados oficiais sobre números absolutos da população LGBTQIA+, mas essa pesquisa demonstra a necessidade de incluir pessoas trans, não binárias, genderfluid, queers e intersexo, ou seja, todas as pessoas que escapam ao ele/ela também.


Um manual muito legal que fala sobre isso é o Diversity Boox para a HBO. Nós precisamos debater, sim, sobre o uso da linguagem neutra como forma ativa de tirar da invisibilidade pessoas transgênero ou não-binárias.


Essa é uma discussão contemporânea que deve ser levada em consideração e ainda estamos aprendendo sobre isso. Modificar e atualizar a nossa linguagem é um movimento saudável. Constantemente, palavras são transformadas, ressignificadas, extintas ou substituídas. Quando falamos em linguagem inclusiva, dentro dela aparece a linguagem neutra.


Por causa do fato de usarmos o masculino quando falamos de forma generalista, a proposta dessa neolinguagem é passar a usar o som da letra E no lugar do O ou A. Por exemplo, em vez de todos, todes.


Há pouco tempo, o “X” ou o “@” eram usados no lugar do “E” (a grafia ficava “todxs” e tod@s”), mas considera-se atualmente que a utilização do “E” é mais inclusiva, pois leva em consideração as pessoas que têm deficiências visuais, já que alguns leitores ortográficos desconsideram palavras com "X" ou "@".


O que precisamos também refletir é que muita gente não entende o uso desse “E”. E que isso que estamos debatendo aqui, não faz parte da realidade da maioria das pessoas. Como veremos mais adiante, boa parte da população brasileira não tem sequer proficiência plena da língua. Portanto, a inserção de uma neolinguagem passa por muita educação e conscientização da própria realidade em que vivemos, desconhecida por muitas pessoas também.


Por isso, a proposta é bem-vinda, mas deve ser analisada com cautela, como usar, quando usar e, na dúvida, buscar utilizar as palavras já conhecidas para tornar a linguagem mais inclusiva, como nos tantos ótimos exemplos que aparecem no manual do André Fischer disponibilizado acima.


A linguagem neutra ainda está em desenvolvimento por pessoas não-binárias e trans, e a sociedade ainda está descobrindo a melhor maneira de se comunicar com respeito. Por isso, é preciso estar com a mente aberta para analisar todos os lados, sem imposições e com análises mais aprofundadas.


Leva tempo e dá trabalho repensar os sistemas culturais normalizados em nossas vidas. Pedir que uma pessoa trans compartilhe seus pronomes demonstra apoio e faz com que ela se sinta mais segura. Quando pessoas cisgênero também compartilham seus pronomes de gênero, o processo começa a ser normalizado, os riscos são reduzidos e é criado um ambiente mais seguro para todes.


Portanto, se tem alguém que precisa dessa linguagem, essa linguagem deve ser levada em consideração e usada sempre que necessário.


Por fim, o que é linguagem simples?


Você sabia que uma grande parte da população brasileira tem índices elementares de alfabetismo funcional? Isso significa que a capacidade de compreender e relacionar dados diversos é baixa. A proficiência plena é limitada a apenas 8% da população, segundo o indicador de Alfabetismo Funcional, do Instituto Paulo Montenegro/IBOPE, de 2016. Esse dado é alarmante.


É por isso que escrever com uma linguagem simples não é só um conceito, mas um direito civil. As pessoas precisam entender e, se temos uma população com alto analfabetismo funcional, precisamos saber como falar com esse público que aí está. Não podemos nos comunicar pensando que a maioria das pessoas faz parte da proficiência plena, pois teremos muitos problemas com essa comunicação.


Obviamente essa conversa nos leva a pensar o quanto falta educação no Brasil. A proficiência plena deveria fazer parte da realidade da maioria das pessoas, mas, enquanto um problema tão complexo e profundo, que depende de muitas questões, não é resolvido, precisamos encarar a realidade de frente, por mais triste que seja.


Usar uma linguagem simples é escrever de forma que a pessoa que lê consiga localizar rápido a informação, entendê-la e usá-la. É sobre simplificar, verificar e explicar. O óbvio precisa ser dito. Um manual muito legal que orienta sobre essa questão é o produzido pelo Escritório Central de Processos do governo do estado do Espírito Santo.


Abaixo, listo mais alguns materiais que chegaram até mim nos últimos tempos, depois da repercussão que o post do meu LinkedIn teve. Sou muito grata a todos que tornaram essa discussão saudável e entendem que não existem verdades absolutas, mas diálogo. Inclusão é feita de diálogo. Se não soubermos usar a própria linguagem para resolver questões linguísticas, já fracassamos.


Um abraço e até o próximo texto!


Materiais enviados:


Querides alunes, do Sua língua

Linguagem louca, entrevista com o filósofo Luiz Felipe Pondé no Linhas Cruzadas

Linguagem neutra e linguagem inclusiva: entenda a diferença!, no Politize!

Em livro, André Fischer propõe reflexão da linguagem para evitar preconceitos, no gay.blog.br

Linguagem neutra, linguística e sociedade, Calisto de Mattos Faria, aluno concludente do curso de Licenciatura em Letras - Língua Portuguesa na Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, RJ. 2021

Manual para o uso não sexista da linguagem, por Paki Venegas Franco e Julia Pérez Cervera

Guia antimachismo no trabalho, da Natura

Écriture égalitaire : "La France a pris des décennies de retard", da Sorbonne Université, tradução: Escrita igualitária: "A França está décadas atrás"

4 passos para criar uma linguagem mais inclusiva no ambiente de trabalho, do Think with Google

Gênero neutro: o fim da língua portuguesa?, podcast com Jana Viscardi no mimimidias em prosa


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